Presidente da Nestlé acha que a água não é um direito, deveria ter um valor de mercado e ser privatizada

LuisaoCS

Presidente da Nestlé acha que a água não é um direito, deveria ter um valor de mercado e ser privatizada

Na última segunda, vi com certo ceticismo um extrato de vídeo de Peter Brabeck-Letmathe, chefe executivo e ex CEO da Nestlé, onde assegura que o acesso à água não tem por que ser um direito humano, senão, todo o contrário: a água deveria ser tratada como qualquer outro bem alimentício e ter um valor de mercado estabelecido pela lei da oferta e da procura. Só desta maneira, aponta, empreenderíamos ações para limitar o consumo excessivo que acontece na atualidade.

Se a dinâmica econômica de nossa época caracteriza-se por algo, provavelmente seja pela privatização, pela tentativa de conversão de tudo, absolutamente tudo, em uma mercadoria, em um objeto susceptível de ser comprado e vendido, produzido e eliminado, quase sempre por uma minoria que se arroga a propriedade dos meios que fazem possíveis todos estes processos.

Mas para além do sentido estritamente material desta tendência -que, por outra parte, na realidade nunca é "estritamente material"-, surgem atitudes cujo sinal comum é a voracidade, essa ambição desmedida na qual a brecha entre a exploração e obtenção de ganhos econômicos chegou a níveis possivelmente intoleráveis.

Como prova disto temos o depoimento de Peter Brabeck-Letmathe, diretor executivo da Nestlé, uma das maiores empresas de alimentos processados do mundo. Em 2005, como parte do documentário "We Feed The World" (uma exploração do diretor austríaco Erwin Wagenhofer sobre a origem dos alimentos e bebidas que chegam a nossas mesas), Brabeck-Letmathe disse, sem empacho nem reservas, que o acesso à água potável não teria por que ser considerado um direito humano e sim, pelo contrário, que deveria ter um valor que permitisse ser comercializada. Logo depois do salto você pode ver o fragmento do documentário onde o empresário qualifica de extremistas as ONGs que defendem que a água deve ser um direito fundamental do ser humano:


As palavras de Brabeck-Letmathe são revoltantes desde a perspectiva da moralidade social e provocam verdadeiro estupor, ainda mais se levarmos em conta que a Nestlé é a líder mundial na venda de água engarrafada, um setor que rende para a empresa 8% de seus rendimentos totais. Em verdadeiro modo o ex CEO da Nestlé é um representante consumado de uma forma de pensamento e ação que, além de velar só por seus interesses pessoais e os de seu seleto grupo, considera que esta mesma seletividade lhe outorga a legitimidade para administrar o que deve chegar ao resto de acordo com seu critério pessoal ou de sua classe. Daí que sustente que os governos devem garantir que cada pessoa disponha diariamente de 5 litros de água para beber e outros 25 litros para sua higiene pessoal, mas o resto do consumo teria que ser gerenciado seguindo critérios empresariais.

Os CEOs como essa nova falange privilegiada, capaz, só ela, de governar, de distinguir o bom do mau, de evitar com sua direção que a sociedade caia no caos e a anarquia da ignorância: o paternalismo que cuida zelosamente de seus filhos deficientes. E no entanto, há um ângulo desde o qual Brabeck-Letmathe tem razão: existe, efetivamente, um punhado de pessoas, em cada país e ao mesmo tempo em todos os países, que por suas decisões, ações e omissões condiciona a maneira de viver de milhões a mais.

Cabe mencionar que conquanto o documento data de 2005, voltou a circular na Internet nesses dias, especialmente nas redes sociais, depois de ser compartilhado em 20 de abril pela Americans Against the Tea Party, a organização que nos EUA confronta diretamente uma das mais conservadoras da política estadunidense, a mesma que é partidária integral de propostas como as de Brabeck-Letmathe.

O ressurgimento do vídeo foi detonado por uma intervenção que o ex CEO da Nestlé fez no Foro Econômico Mundial, celebrado anualmente em Davos, Suíça, quando, em fevereiro passado, declarou o seguinte:

- "Sou o primeiro a dizer que a água é um direito humano [...] O problema é que 98.5% da água que usamos não é um direito humano porque não a tratamos como tal, usamos irresponsavelmente, apesar de que é o recurso mais precioso que temos. Por que? Porque não damos nenhum valor a essa água. E sabemos bem que se algo não tem valor, é natural do comportamento humano usar de maneira irresponsável".

O custo econômico como regulador de conduta, como elemento de disciplina que faz com que todos se ajoelhem à normalidade conveniente para o sistema. Sem dúvida, um ponto controverso, um argumento que se sustenta em que na prática estamos acostumados a dar valor só naquilo que nos custa algo monetariamente, um vício do consumo capitalista.

A privatização dos recursos para o desfrute só daqueles que possam pagar pelo direito ao consumo parece ser uma lamentável tendência contemporânea que reflete nossa patológica irresponsabilidade e a ambição extrema de um grupo dominante.

Via | Examiner.


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Comentários

Não apoio a idéia, mas, de fato, penso, pelo que observo no decorrer dos nossos dias, que está incutido no comportamento humano ser ético só quando tem alguém olhando, no caso, cumprir com os deveres, cívicos ou morais, quando há fiscalização. Com o fato de longínquas futuras gerações, virem sofrer com a escassez da água, uma medida regulatória seria uma idéia educacional considerável, porem, algumas idéias dessas possivelmente já devem ter pululado a cabeça de muitos governantes, principalmente brasileiros, com um punha de milhões de novas maneiras de enriquecer as custas um uma determinação parecida com a cita. E bem sabemos que nosso governo não é ético nem quando há alguém olhando. Portanto, ao menos para mim, é impensável debater um assunto como este. Volto a afirmar, não concordo com a idéia da maneira que foi exposta, mas me preocupa refletir sobre o assunto e não chegar a outra conclusão, que não a que: hora ou outra algo parecido vai acontecer. Então seria mais saudável pensarmos, de imediato, em medidas corretivas para nossos representantes (não no sentido de educá-los, pois penso que não há solução para os exemplares que conhecemos hoje, mas talvez num extermínio dos vícios existentes, para não precisarmos pensar em correção dos próximos que viram) , pensarmos em construir algo comprometido e sério para as tomadas de decisão em nome de todos, para que na hora que discussões com proporções parecidas a citada no momento, se tornem inevitáveis, possamos estar seguros que pessoas coerentes estão pensando em todas as saídas possíveis para qualquer que seja o drama debatido, e que, a decisão mais justa será tomada. Essa é minha Opinião sobre o assunto.

Sem palavras,esse homem calado é um poeta,cuja única serventia da cabeça é separar as orelhas.É a pior ideia desde a bola quadrada.

Não é a toa que a Nestlé usa mão-de-obra "escrava" na África '-'

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