Isto é caro? De como o preço de uma coisa nos diz pouco a respeito do valor desta mesma coisa

LuisaoCS

Isto é caro? De como o preço de uma coisa nos diz pouco a respeito do valor desta mesma coisa

Em alguns casos específicos, enquanto não se cria um método justo de pagamento, sou defensor sim dos direitos autorais. No entanto não posso deixar de me assombrar quando os defensores acérrimos do copyright, de uma concepção da cultura e da informação como algo escasso e precioso que deve ser protegido a todo custo -inclusive pisoteando outros direitos mais importantes-, esgrimem a peregrina, mas difundidíssima ideia de que estamos desvalorizando os livros, à música, os filmes que baixamos avidamente da Internet sem pagar 1 real por isso.

Porque, sustentam que, se não pagamos nada por algo, então esse algo não tem valor. E, ao não ter valor, concluem, então é desprezível, o que conduz a que ainda se reclame maior gratuidade, como uma cobra mordendo o rabo.

Como eu não cobro por ler o que aqui posto, devo supor que tudo o que está aqui publicado não tem nenhum valor para vocês ou simplesmente é lixo. E é possível que seja lixo, já que segundo a lei de Sturgeon, 90% de qualquer coisa é lixo, mas estou convencido de que o será independente do preço que tenham que pagar por isso. Por essa mesma regra de três, Justin Bieber deve compor melhores músicas do que milhares de ótimos compositores e intérpretes porque as entradas de seus shows são caríssimas.


A questão é que o preço das coisas, conquanto pode outorgar uma certa auréola de alto valor, de Premium, de bacana, a ditas coisas -um vinho muito caro nos parecerá que tem melhor buquê do que um barato, ainda que tenham servido o mesmo vinho em ambas as taças-, não descreve em absoluto o valor intrínseco das coisas: se vendessem o vinho barato a preço de caro, não passaria a ser um vinho melhor.

Ademais, o preço das coisas é imposto por uma mistura de oferta e demanda e dinâmicas psicológicas muito intrincadas. Sem contar o efeito de ancoragem, esclarecido muito eloquentemente por Dan Ariely, que propôs a seus alunos da Sloan School of Business do MIT que ia fazer uma leitura de poesia, mas não sabia quanto ia custar, tal e qual explica o editor da Wired Chris Anderson em seu livro Free:

"Dan entregou um questionário a todos os alunos e perguntou à metade deles se estavam dispostos a pagar 10 dólares por escutá-lo ler, e à outra metade perguntou se estavam dispostos a escutar se ele pagasse 10 dólares à cada um. Depois fez a mesma pergunta a todos: Quanto pagariam por escutar lendo a versão curta, média ou longa do poema?

Isto é o que os economistas condutuais denominam como "âncora", que calibra o que o consumidor pensa que é um preço justo e pode ter um efeito decisivo sobre o que pagará em última instância. Neste caso, os alunos aos quais perguntaram se pagariam 10 dólares, estavam dispostos a pagar, como média, 1 dólar pelo poema curto, 2 dólares pela versão média, e 3 dólares pela versão longa. Entretanto, os alunos que achavam que Dan iria pagar para que ouvissem o poema, disseram que pagariam 1,30 dólares para escutar a versão curta, 2,70 dólares pela média, e 4,80 por suportar a leitura longa."

Os preços, pois, pouco ou nada nos dizem sobre o valor real de uma coisa. Até ao ponto de que clubes de música de Los Angeles estão cobrando para alguns grupos por tocar na casa em vez de lhes pagar, como é o habitual.

Isso não fez com que a qualidade das bandas diminuísse, porque estes valorizam a atuação em público mais do que o dinheiro, já que, se são bons, podem chegar a ganhar muito dinheiro e prestígio de outras maneiras, e em outros casos funciona como uma grande vitrine para que conheçam seu trabalho. De fato, vocês não estão pagando por me ler, mas eu consigo pagar minhas contas graças ao que escrevo. Entendem?

Como já observou o agudo Mark Twain muito antes de que nascesse a pirataria digital:

"Na Inglaterra existem cavalheiros acomodados que conduzem carruagens de quatro cavalos durante 20 ou 30 milhas em um percurso diário sobre um escladante sol porque o privilégio lhes custa um dinheiro considerável; mas se oferecessem-lhes um salário pelo serviço, isso se converteria em trabalho e se negariam a fazê-lo."

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