Seria o planeta “Próximo b” o futuro lar da humanidade?

LuisaoCS

Seria o planeta “Próximo b” o futuro lar da humanidade?
Ilustração artística de Próximo b por M. Kornmesser


A equipe do astrônomo Guillem Anglada-Escudé publicou ontem, 26/08, na revista Nature um das descobertas astronômicas mais importantes e esperadas: a existência de um planeta de tamanho similar à Terra na órbita da estrela mais próxima a nosso Sistema Solar, a apenas quatro anos luz de distância. A partir dos dados obtidos de dois telescópios do Observatório Europeu Austral entre 2000 e 2014 e uma série de observações realizadas entre janeiro e março de 2016, os cientistas detectaram a presença de um planeta rochoso orbitando ao redor da estrela Próxima Centauri.


O que torna a descoberta especialmente interessante é que o planeta, com uma massa de 1,3 vezes a da Terra, se move na zona temperada da estrela, naquela em que talvez seria possível encontrar água em estado líquido. O planeta, batizado como Próximo b, dá uma volta a sua estrela a cada 11,2 dias e o faz tão rápido porque está bem mais para perto do que estamos do Sol, a uns 7,5 milhões de quilômetros (uns 5% da distância que nos separa de nossa estrela). Por outro lado, Próxima Centauri é uma anã vermelha, uma estrela fria da constelação do Centauro que se encontra perto de um par de estrelas bem mais brilhantes conhecidas como Alfa Centauri A e B.


O achado é especialmente meritório porque foi feito a partir da análise cuidadosa das minúsculos mudanças no efeito Doppler. Observando a luz da estrela, os astrônomos detectaram pequenas variações que indicavam a presença de um planeta cuja gravidade estava alterando a luz.

- "Encontraram muitos exoplanetas e vão descobrir ainda muitos mais, mas buscar o potencial análogo da Terra mais próximo e consegui-lo tem sido a experiência de toda uma vida para todos nós", assegura Anglada-Escudé. - "O seguinte passo é a busca de vida em Próximo b."

Ainda que Próxima Centauri seja bem mais débil que o Sol, o fato de estar tão perto faz com que o planeta seja fortemente afetado pelas labaredas de raios X e de radiação ultravioleta procedentes da estrela. A densidade de fluxo magnético de Próxima Centauri sobre este planeta é 600 vezes maior do que a do Sol sobre a Terra, o fluxo de raios X é umas 400 vezes mais intenso que aquele que recebe nosso planeta, e outro tanto ocorre com a radiação ultravioleta que atinge Próximo b. è difícil aventurar-se em dizer que nesse meio de radiação tão extremo a vida poderia ter se originada e mantida.

Ainda que falte muita informação se Próximo b é potencialmente habitável, sim podemos ter uma ideia do aspecto que teria este planeta se pudéssemos posar sobre sua superfície. O tamanho aparente de sua estrela no céu seria quase o triplo que o nosso, todo um espetáculo. Trata-se de uma estrela avermelhada e mortiça que mal emite luz no espectro visível, de modo que o planeta estaria envolvido, para nossos olhos adaptados à vida na Terra, em uma penumbra constante que a próximas Alfa Centauri A e B não conseguiriam desfazer.

Por outro lado, ao estar tão perto da estrela, é provável que Próximo b esteja acoplado em sua rotação com Próxima Centauri, do mesmo modo que estamos com a Lua. Isto é, o planeta ofereceria sempre a mesma cara a sua estrela, o que complicaria a habitabilidade do mesmo, pois ao estar o lado diurno muito quente e o noturno tão frio que, na existência de atmosfera, esta poderia chegar a se congelar, literalmente. Outra possibilidade interessante é a existência de um cinto habitável na fronteira entre ambos hemisférios, o frio e o mais quente, ainda que por agora tal possibilidade é pura especulação.

Seria o planeta “Próximo b” o futuro lar da humanidade?

Como podemos aprender mais coisas sobre as características deste mundo tão próximo e promissor? Se tivéssemos a sorte de que Próximo b transitasse em algum momento entre sua estrela e nós (os cientistas estimam que só existem 1,5% de probabilidades disto) poderíamos utilizar a espectroscopia de transmissão para analisar a composição de sua atmosfera e saber mais detalhes sobre as possibilidades de viajar até lá.

Com o lançamento do telescópio espacial James Webb em 2018, os astrônomos esperam encontrar muitos mais exoplanetas na zona temperada das anãs vermelhas, o que permitiria comparar os dados. As anãs vermelhas são as estrelas mais abundantes da galáxia, mas só foram descobertos uns poucos planetas do tamanho da Terra em suas zonas temperadas. Como escreve Artie Hatzes na Nature:

- "Se apenas uma pequena parte das anãs vermelhas tivessem planetas em sua zona temperada, nossa galáxia poderia estar bulindo de vida."

Como curiosidade, Próxima Centauri seguirá existindo muitas centenas de milhares de anos após que nosso sol se apague, o que permitiria a qualquer forma de vida existente ali seguir evoluindo muito depois ou, quem sabe, os próprios humanos ao mudar de bairro dentro da galáxia se a tecnologia nos permitir superar a distância.

Por enquanto, a humanidade se encontra um pouco longe de chegar até um sistema situado a quatro anos luz, o que não quer dizer que seja impossível. A sonda mais rápida lançada até agora é a Voyager 1, que se afasta do Sol a uma velocidade de 17 km/s. A essa velocidade demoraríamos 74.000 anos para chegar a Próxima Centauri. Usando a tecnologia que já está disponível é possível enviar naves não tripuladas que vão quase cinco vezes mais rápidas graças ao emprego das velas solares e sobrevoos próximos do Sol e Júpiter. Mas evidentemente, não é suficiente, já que demoraríamos mais de 14.000 anos para chegar.

Para atingir Próximo b é necessário a introdução de novas tecnologias, como a propulsão mediante as velas laser. Nesse caso seria possível chegar à estrela mais próxima em 20 anos. Já foi apresentado um projeto para trabalhar nessa via, ainda que nos falte muito para atingir este nível de desenvolvimento.

Via | Science Daily.


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