'Novo normal' é uma contradição nos termos

LuisaoCS

'Novo normal' é uma contradição nos termos

Naquele distópico 2019 de "Blade Runner", o replicante Roy Batty já tinha visto naves pegando fogo além de Orion e raios-C brilhavam no escuro perto do portão de Tannhäuser, mas ele não disse nada sobre pessoas presas dentro de casa ou cervos, raposas e javalis perambulando livremente pelas ruas de grandes cidades. Neste ano real de 2020, milênicos, boomers, zoomers e outras tribos deste pedaço do multiverso estão acumulando um volume de experiências que aborrecerá duas gerações de netos.

Nesta era batizada com o oximoro do "novo normal", estamos vendo todo tipo de situações que antes eram implausíveis. Em outra linha do tempo, a pandemia de covid-19 poderia ser vista como uma trama de ficção científica das mais absurdas. Felizmente ou infelizmente, este é o presente que temos que viver. Ataca-me lentamente a consciência de que não vamos viver como vivíamos. Levo dias e dias com saudades da vida que acho que perdi; dias e dias pensando nessas coisas que gostava de minha vida anterior ao vírus que seguramente não voltarão: as viagens, a felicidade de se misturar sem filas com pessoas em mercados ou estádios ou manifestações, os encontros e conversas impensados, o calor de um abraço.


'Novo normal' é uma contradição nos termos

Novo normal é uma contradição nos termos. A normalidade é construída através do tempo, pouco a pouco, provando e descartando e adotando formas e maneiras que vão se tornando normais. Agora é normal que as mulheres votem; faz cem anos era anormal, e este contrassenso foi-se "normalizando" durante todo o século XX, por exemplo. O "novo normal", ao contrário, não será o resultado de um longo processo senão a imposição de alguns governos empoderados por nosso medo.

Estão inflados. Nunca governos democráticos tiveram tanto campo para exercer seu poder: faz dois meses que lhes permitimos qualquer coisa porque estamos assustados pela doença, pela morte presente e prematura. Fazem por nosso bem; não há razão mais eficaz para te fazer obedecer que te convencer de que é "por seu bem", e agora estamos, com razão ou sem ela, convencidos.

De modo que tudo o que fizemos com nossas vidas nestes meses não foi produto de um debate, de uma decisão consultada e compartilhada: é o que nossos governos, apoiados no suposto saber de certos cientistas, nos dizem que façamos. A democracia foi suspensa e os poderes decidem sem mais máscaras. Quando passar esse susto, a imobilidade do susto, teremos certamente vários terremotos políticos em volta dos ditadorezinhos e ladrões que emergiram.

Lá se vão quase dois meses que acordamos cada manhã com as cifras dos mortos, as histórias dos mortos, os ecos dos mortos: a morte na cabeça. Para uma cultura que se dedica a ocultar a morte é um fracasso extraordinário e teremos que ver como isso vai mudar nossas vidas. Fizemos tudo o que foi possível estes dias pelo medo à morte, pela morte. Não está claro que possamos nos desfazer dela. Não está claro, em geral, como seremos, mas o novo normal incluirá uma presença da morte que até agora soubemos evitar.

Enquanto, a pergunta do milhão é se os Estados manterão a força que conseguiram nestas semanas, todos, absolutamente todos, as grandes e pequenas empresas, ricos e pobres de todas as formas e cores, precisaremos de união para sobreviver nestes tempos difíceis. Notamos agora que há momentos em que o destino das pessoas se faz comum, que há males -as epidemias, a destruição da Terra- que ainda não aprenderam a discriminar segundo fortunas. Esse seria o grande ensino que os mais poderosos quererão esquecer, pois contradiz as bases de sua conduta, de suas ideias do mundo.

A verdade é que, de forma repentina, teremos que nos ajustar a este novo tipo de sociedade e para compreender melhor como tudo isso está acontecendo -e o que virá em seguida-, o pessoal do site caça níquel online Betway Cassino criou um infográfico que estrutura as mudanças que levaram o mundo a desacelerar e como as pessoas estão enfrentando as dificuldades de se reconectar com suas atividades mundanas.

Sim, chegarão as mudanças na vida cotidiana, em um mundo mais plano. A tela do computador nunca foi tão necessária, porque além de todas as funções e ferramentas que já concentra, agora se somam as relações sociais, espetáculos em streaming e trabalho, muito trabalho. A tendência existia, mas se acelerou: o "teletrabalho" chegou para ficar, e teremos que ver como isso vai mudar nossas vidas.

Pode produzir, entre outras coisas, cidades menos congestionadas por pessoas indo a seus empregos, mas também acabar com os negócios de tantos bares, restaurantes, transportes, etc. Pode produzir um uso mais razoável de nosso tempo, mas já produz um aumento do tempo de trabalho. Pode reduzir o controle dos chefes, mas também dificulta a possibilidade de armar respostas comuns dos trabalhadores.

E será um mundo muito menos físico. Entre o avanço das relações digitais e o medo aos demais nos tocaremos muito menos. Os abraços e os beijos ficarão limitados aos muito próximos, e vamos ver quantos serão os valentes que se atreverão a dar a mão a um desconhecido quando se apresentem. Nos olharemos com essa desconfiança que já se encontra em qualquer lugar, e nem sequer nos veremos: viveremos em um mundo com menos caras, com as caras afundadas por trás dessas máscaras. O sorriso se voltará algo privado: uma mordomia de interiores, como o cabelo das mulheres muçulmanas.

Um "novo normal" começa nestes dias, um novo mundo onde viveremos com mais medos e controles. Um mundo com menos gestos, menos trocas. Um mundo onde os estranhos serão bem mais estranhos.

São só algumas previsões para os que ainda achamos que podemos prever algo. Há milhões cuja previsão mais insistente consiste em querer prever a comida de manhã. Enquanto muitos "teletrabalham" e lamentam as viagens e beijos perdidos, milhões clamarão, reclamarão, exigirão a gritos. E a reposta a estes dependerá a sorte de nossos países. Então sim saberemos como será essa normalidade que anunciam e que pode ser, no essencial, sempre a mesma. Ou não, como saber?

Faz dois meses não imaginávamos nada do que está ocorrendo: se esta lição não nos ensinar a modéstia, nunca nada poderá.


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